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A evolução do ecossistema empreendedor brasileiro

Redação Recifes
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A evolução do ecossistema empreendedor brasileiro

*Por Daniella Mello, CMO na Endeavor Brasil

Tenho sido convidada com frequência para falar sobre o ecossistema empreendedor brasileiro e quase sempre noto a mesma coisa: conhecemos bem a fotografia atual, mas pouco o filme que nos trouxe até aqui. Falamos de unicórnios, fundos e hubs, mas raramente reconstruímos as transformações que tornaram tudo isso possível. Entender essa evolução ajuda a explicar por que tantos playbooks do passado deixaram de funcionar e o que começa a desenhar na próxima década.

O empreendedorismo brasileiro não evoluiu de forma linear, mas em ciclos movidos pela tecnologia e pelo amadurecimento do ecossistema. Em cada um deles, empresas, capital, instituições de conhecimento, conectores e o ambiente que dá liga a tudo, do governo às comunidades, avançaram juntos.

Penso sempre em uma pedra atirada em um lago. O impacto acontece em um único ponto, mas o que transforma a paisagem são os círculos que se formam depois e alcançam lugares que a pedra jamais tocaria sozinha. Ecossistemas funcionam assim: multiplicam conhecimento, capital e oportunidades e geram um impacto muito maior do que qualquer agente isolado. Foi esse efeito multiplicador que transformou um grupo de pioneiros no ecossistema pujante de hoje.

Antes dos anos 2000 | Antes do ecossistema: a era do economia real

Antes dos anos 2000, o Brasil ainda não falava em startups como fala hoje. Quem deixava um emprego estável para abrir uma empresa ouvia muito mais questionamentos do que incentivos. O empreendedorismo estava fortemente associado à economia tradicional, ao comércio, à indústria e aos negócios familiares. Os fundos dedicados à tecnologia eram raros, e aceleradoras e hubs de inovação ainda não tinham presença relevante. Não havia um ecossistema estruturado como o que conhecemos hoje.

As primeiras bases, no entanto, começaram a ser construídas. Incubadoras como o CELTA, em Florianópolis, e o CIETEC, na USP, estavam entre os esforços pioneiros para aproximar universidades, pesquisa e inovação do mundo dos negócios. Ao mesmo tempo, instituições e programas como Softex, Sebrae e Anprotec ajudavam a formar a infraestrutura que, anos depois, sustentaria o crescimento da indústria de startups.

Foi nesse contexto que a Endeavor chegou ao Brasil, em 2000. Fundada três anos antes, nos Estados Unidos, por Linda Rottenberg e Peter Kellner, a organização sem fins lucrativos iniciou sua operação no país pela articulação de Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marília Rocca, em torno de uma ideia ainda pouco conhecida por aqui: apoiar empreendedores de alto impacto como estratégia de desenvolvimento econômico.

Mas havia um desafio ainda mais básico: o próprio conceito de empreendedorismo mal fazia parte do vocabulário brasileiro. Uma das primeiras iniciativas da Endeavor foi enviar dicionários à imprensa para chamar atenção para a ausência do termo. Em 2004, com influência da organização, a palavra “empreendedorismo” entrou oficialmente nos dicionários brasileiros. 

2000–2010 | O nascimento do ecossistema: a era da internet

Os anos 2000 consolidaram empresas que provaram ser possível construir negócios digitais relevantes no país. Buscapé, Submarino, Locaweb, UOL, Mercado Livre e TOTVS ajudaram a formar os hábitos digitais dos brasileiros e mostraram o potencial econômico da internet.

O ecossistema começava a ganhar estrutura. monashees e FIR Capital apostavam em tecnologia antes do amadurecimento do venture capital no Brasil. Finep e BNDES ampliavam o apoio à inovação. O Porto Digital conectava empresas, universidades e poder público em Pernambuco. A Lei da Inovação e a Lei do Bem criavam incentivos, enquanto a Endeavor formava uma rede de empreendedores e mentores. As peças começavam a se conectar.

2010–2015 | A formação do ecossistema: a era das startups

Smartphones, internet móvel, computação em nuvem e a queda no custo de desenvolvimento de software mudaram as condições para empreender. Nasceram Nubank, iFood99 , com um traço em comum: modelos digitais concebidos para escalar. 

O capital ganhou reforço com Kaszek, Redpoint eventures e Valor Capital Group, enquanto a Anjos do Brasil ajudava a organizar o investimento-anjo. Start-Up Brasil, InovAtiva Brasil, Aceleratech, que depois se tornaria ACE, e Artemisia ampliaram o apoio aos novos negócios. Insper, ITA e FGV fortaleceram o ensino e os centros de empreendedorismo.

Criada em 2011, a Associação Brasileira de Startups, a Abstartups, assumiu um papel institucional importante, enquanto empreender começava a se tornar uma escolha legítima de carreira, e não apenas uma alternativa à falta de emprego. Eu lembro muito bem disso, pois em 2014 foi quando decidi sair de uma carreira estável na Unilever para empreender – um movimento que na época ainda era visto como loucura.

2015–2020 | A expansão do ecossistema: a era das scale-ups e dos unicórnios

Com as bases montadas, veio uma aceleração sem precedentes de startups e scaleups. Stone, Gympass, hoje Wellhub, Loggi, EBANX e QuintoAndar ganharam escala e, a partir de 2018, o Brasil passou a produzir unicórnios em sequência.

O capital acompanhou esse movimento, com Astella, Canary e SoftBank Latin America Fund, enquanto os CVCs cresciam e a ABVCAP ajudava a amadurecer a indústria. Cubo Itaú, Distrito e Liga Ventures aproximavam startups, investidores e grandes empresas. Com o programa Scale-Up Endeavor, o apoio passou a mirar o crescimento estruturado de negócios que estavam transformando indústrias e já haviam validado seus modelos.

Firmou-se um modelo mental em que escala, valuation e rodadas sucessivas ditavam o ritmo. Durante algum tempo, esse playbook pareceu incontestável. O ciclo seguinte mostraria seus limites.

2020–2025 | A maturidade do ecossistema: a era da eficiência

A década começou sob extremos. A pandemia acelerou a digitalização e, combinada à liquidez global e aos juros baixos, impulsionou um ciclo recorde de investimentos. Logo depois vierama alta dos juros, a retração global do venture capital e a correção dos valuations.

As empresas passaram a priorizar eficiência, caixa e criação de valor, enquanto climate techs, deep techs e empresas de software B2B ganhavam relevância. QI Tech, CloudWalk, Pismo e Flash representaram uma geração construída com mais atenção aos fundamentos do negócio.

O mercado de capital também se diversificou, com venture debt, fundos especializados e family offices ampliando as alternativas disponíveis. Hubs como Instituto Caldeira, Porto Digital e Ágora Tech Park aproximaram startups, grandes empresas e poder público, enquanto redes e organizações como B2Mamy, Sororitê e BR Angels ampliaram o acesso a conhecimento, capital e conexões.

Eventos como South Summit Brazil e Web Summit Rio se firmaram no calendário internacional. O Marco Legal das Startups foi sancionado, e cidades como Florianópolis, Recife, Fortaleza e Manaus ganharam densidade como ecossistemas regionais.

A lição desse período ficou clara: captar não é vencer. Valuation não substitui criação de valor. Crescimento sem eficiência cobra seu preço.

2025 em diante | A transformação do ecossistema: a era da amplificação

Ainda é cedo para definir os contornos desta fase, mas alguns movimentos já parecem irreversíveis. Se as décadas anteriores foram marcadas pela construção da infraestrutura, a atual começa a ser definida pela amplificação da capacidade de todos os participantes do ecossistema.

A inteligência artificial vem reduzindo o custo de desenvolver software e democratizando capacidades antes restritas às grandes empresas. Ferramentas generativas, agentes e soluções no-code permitem que equipes menores operem com uma sofisticação que antes exigia estruturas muito maiores.

Solo founders, maior receita por colaborador e equipes mais enxutas apontam para um modelo em que escala e eficiência podem caminhar juntas desde o início. Mas o acesso à tecnologia, sozinho, não cria vantagem competitiva. O diferencial estará na capacidade de aplicá-la a problemas relevantes e transformar velocidade em valor.

Mais negócios também nascem com ambição global. Estudos como o Going Global, da Endeavor, mostram que a expansão internacional aparece cada vez mais cedo na estratégia dos founders e deixa de ser tratada apenas como um movimento posterior à conquista do mercado brasileiro.

O que aprendemos com essa trajetória?

O maior ativo construído nas últimas décadas não foi apenas a criação de empresas, mas a formação de um ambiente em que conhecimento, capital, conexões e inspiração circulam e quem cresce ajuda outros a crescer.

É aí que mora o verdadeiro efeito multiplicador. Cada empresa de sucesso forma novos talentos, mentores, investidores e fundadores, ampliando as possibilidades da geração seguinte. O impacto deixa de ser individual e passa a se multiplicar.

É por isso que ecossistemas importam: eles transformam conquistas individuais em sucesso coletivo.

Essa história ainda está sendo escrita. Se aprendemos algo nos últimos 25 anos, é que os próximos capítulos virão da mesma combinação que nos trouxe até aqui: gente disposta a construir, gente disposta a compartilhar e um ecossistema cada vez mais unido e capaz de conectar os dois.

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Artigo originalmente publicado em startups.com.br
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